quarta-feira, 6 de abril de 2011

Trisul tem prejuízo com baixa renda e tenta mudar negócio

Daniela D'Ambrosio e Ana Paula Ragazzi | De São Paulo
05/04/2011
Marco Antonio Mattar, diretor financeiro da empresa, que voltará a concentrar negócios no médio e no alto padrão
O mercado imobiliário assiste ao primeiro revés da baixa renda. A Trisul, empresa que atuava no segmento de médio e alto padrão e resolveu mudar o rumo para os imóveis populares há cerca de dois anos, está tentando consertar a rota antes que seja tarde demais. A empresa teve prejuízo de R$ 18 milhões no quarto trimestre e margem líquida negativa de 10% - único resultado com perdas em todo o setor.

O mercado imobiliário assiste ao primeiro revés da baixa renda. A Trisul, empresa que atuava no segmento de médio e alto padrão e resolveu mudar o rumo para os imóveis populares há cerca de dois anos, está tentando consertar a rota antes que seja tarde demais. A empresa teve prejuízo de R$ 18 milhões no quarto trimestre e margem líquida negativa de 10% – único resultado com perdas em todo o setor.

Mesmo tendo lançado 32% a mais em 2010 e vendido 30% acima de 2009, a Trisul fechou o ano com lucro de R$ 39 milhões, um recuo de 24% sobre o ano anterior – um dos únicos casos de queda de lucro no setor, ao lado da Cyrela. De outubro a dezembro, as margens (bruta, Ebitda e líquida) caíram mais de 15 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2009. No ano, a companhia teve margem líquida de 5%, contra 9,2% em 2009. No setor de construção civil, margem líquida nesse nível é comparável apenas às das empresas que quebraram no auge da crise, como Klabin Segall e Abyara.

Procurada, a empresa não comentou os últimos resultados. No balanço anual divulgado na semana passada, informou que terá maior concentração nos segmentos médio e médio alto, “replicando nos empreendimentos futuros o sucesso obtido ao longo de 30 anos nesses nichos”. Também disse que irá acabar com alguns projetos ainda não lançados, que deixaram se ser atrativos, e substituir o banco de terrenos por não enquadramento no novo foco.

A decisão de mudar o perfil do banco de terrenos é uma das mais difíceis de ser tomada. O banco de terrenos é um espelho do futuro da companhia e do direcionamento estratégico que ela pretende seguir. No caso da Trisul, os terrenos têm potencial de gerar vendas de R$ 1,6 bilhão, o equivalente a 38 projetos, conforme balanço da companhia. São 16 projetos da marca Trisul Lar, até R$ 130 mil, sete da Trisul Life (de R$ 130 mil a R$ 200 mil) e mais 12 no médio e médio alto padrão, além de três na área comercial. Do total de estoque em terrenos, 55% estão no segmento econômico.

Em entrevista ao Valor, concedida antes da divulgação do balanço de 2010, Jorge Cury Neto, principal executivo da Trisul, afirmou que, após a abertura de capital, em outubro de 2007, a companhia passou a atuar mais no segmento econômico. Sempre focada em São Paulo, a empresa resultou da fusão da Tricury com a Incosul.

Chegou a um ponto, de acordo do com o executivo, que a empresa concentrou 75% dos negócios em baixa renda e 25% em alto e médio padrão, segmento que tradicionalmente era o principal. Segundo fontes do setor, a empresa mudou o foco principalmente após a concepção do programa Minha Casa, Minha Vida, em março de 2009.

No entanto, Cury Neto avalia que o segmento econômico ficou prejudicado por conta do descolamento dos preços dos insumos e da mão de obra. “Os custos subiram e ficamos limitados a preços mais baixos no ponto de venda, o que prejudicou as margens”, comentou. Dos 23 empreendimentos lançados no ano passado, 6 foram no programa Minha Casa, Minha Vida e 5, no segmento econômico, de R$ 130 mil a R$ 200 mil.

O presidente da Trisul afirmou ainda que a empresa fez lançamentos populares no segundo semestre de 2010, mas teria feito melhor se tivesse esperado pelo reajuste dos preços no âmbito do Minha Casa, Minha Vida, anunciado em janeiro deste ano. A maioria das companhias segurou os lançamentos para 2011, esperando o aumento do teto, que passou de R$ 130 mil para R$ 170 mil.

“Concluímos que o melhor a ser feito seria voltar a atuar como em nossas origens, focando a alta e a média renda. Nossa intenção é que esse segmento volte a representar 75% de nosso negócio”, disse. Ele ressaltou, no entanto, que a empresa ainda possuía um grande banco de terrenos no segmento econômico e que precisaria ser utilizado. Em razão disso, por um ano ou dois, as margens da empresa ainda continuariam pressionadas.

A dívida da Trisul saiu de R$ 457 milhões em 2009 para R$ 1,098 bilhão em dezembro de 2010. A companhia fez quatro emissões de debêntures (em julho de 2008, dezembro de 2009, janeiro e maio de 2010) num total de R$ 560 milhões. “O resultado financeiro líquido de 2010 ficou negativo em R$ 20 milhões, decorrente do aumento das despesas financeiras com juros oriundos das captações de recursos via emissões de debêntures”, explicou a companhia.

No mercado, há tempo se fala de incorporadoras que foram para a baixa renda sem vocação ou histórico para atuar no setor. O segmento tem uma série de especificidades, exige um método construtivo mais industrializado, construção própria, canteiros grandes e, sobretudo, experiência em lidar com a Caixa. Um dos principais problemas de quem atua na baixa renda está na demora e na dificuldade no repasse dos clientes para a Caixa.

O aumento do preço dos terrenos e da mão de obra foi outro contratempo. No ano passado, várias construtoras que não tinham experiência nesse mercado e entraram quando essa era praticamente a única porta aberta para o cliente – logo após a crise – foram mais rápidas e passaram a vender terrenos ou se associar a empresa com mais tradição nessa área.

Marco Antonio Mattar, diretor de relações com investidores, afirma que a Trisul nunca se arrependeu de ter feito a abertura de capital. “A listagem permitiu acesso a uma nova estrutura de capital, que viabilizou a expansão.” Em números, ele descreve que, antes da oferta, a Trisul possuía valor geral de vendas de R$ 100 milhões. Em 2010, alcançou R$ 800 milhões.

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